domingo, 28 de outubro de 2007

Mudanças brasileiras

Nota: texto originalmente escrito em 04/12/2004, antes, portanto, de meu ingresso no curso de História, sem as virtudes/vícios acadêmicas. Propositalmente sem alterações ou revisões, então, perdoem algum eventual excesso.

Analisando um curto período de nossa História, da Independência até a proclamação da República, podemos por amostragem ver como as mudanças no Brasil são de cunho conservador. Parece um paradoxo - pois conservador é avesso à mudanças por definição - mas é o que se pode apurar.
Vejamos: às estruturas conjuntarais que dominavam o Brasil Colônia era interessante continuar na condição de colônia portuguesa, mesmo estando já elevado ao status de Reino Unido a Portugal. A causa da independência, porém, já se tornava urgente não só pelo contexto local entre os vizinhos hispânicos, mas principalmente pela pressão dos ingleses. O rei D. João voltou a Portugal mas deixou seu filho, Pedro, como regente e antes de partir aconselhou seu filho a tomar a liderança do processo, caso realmente fosse deflagrado. Queria, com isto, garantir a permanência da Família Bragança no comando dos dois países. Já previa que o processo de independência era questão de tempo e não havia como voltar atrás. A independência, portanto, foi arranjada pela soma de forças da elite com o príncipe-regente e de forma a, mesmo alterando o status político, continuar a manutenção do antigo regime oligárquico, monocultural, elitista e escravista. Poucas pessoas detinham todo o poderio econômico, financeiro e político, não permitindo o acesso das camadas-base da população, como trabalhadores, operários e camponeses e até mesmo a classe média urbana - hoje decisiva para qualquer pleito eleitoral - participarem do processo de escolha e governança do país.
As decisões e o foco governista passam a figurar apenas na esfera central, o Rio de janeiro é a sede do Império e decide os rumos do resto da nação negando qualquer forma de autonomia provincial.
O Primeiro reinado foi marcado pela grande centralização de Dom Pedro, o que causava sua má popularidade e fama de habilidade em conseguir desafetos. No Segundo Reinado, Dom Pedro de Alcântara acabou instituindo o sistema parlamentarista. Mesmo sendo "à brasileira" mais uma vez mudava o modo de se governar mas justamente para a continuidade. A partir da implantação do parlamentarismo no Brasil, as decisões passaram a figurar mais nas mãos do Ministério e do Primeiro-Ministro do que propriamente do Imperador, que usava basicamente do Poder Moderador para intervir como árbitro entre os poderes, sujeitos aquele. Na realidade, a experiência parlamentarista brasileira foi considerada de um "parlamentarismo às avessas" uma vez em que ocorre ao contrário do modelo tradicional: enquanto nesse é o partido que mais elegeu representantes (e conseqüentemente o mais votado) é quem indica o primeiro ministro (ou seja, de baixo para cima) naquele é o Imperador quem escolhe o primeiro-Ministro e, caso ele não tenha maioria na Câmara, ela era sumariamente dissolvida e convocava-se novas eleições, normalmente marcadas por fraudes.
O jovem país mostrava sinais de conservadorismo, menos devido a Casa Imperial e mais ligados aos oligarcas, que queriam manter a todo custo seus privilégios. No primeiro reinado mais nitidamente, e no Segundo um pouco menos mas ainda assim presente, a mentalidade e o sistema colonialista permeneciam.
O Brasil, desde sempre, mostra sua vocação interesseira, antidemocrática e aristocrática. Tudo o que se houve de transformação neste país: Independência, o Absolutismo, O Parlamentarismo, a Proclamação da República e até mesmo a recente Redemocratização foram mais uma manobra política que sempre visou dar seqüência ao continuísmo, onde os velhos oligarcas mudavam para permanecerem os mesmos, com seus interesses devidamente preservados.Nunca houve um efetivo interesse em modernizar o país. Nunca nenhum líder pensou em preparar o país para o futuro, deixar um legado de mudanças estruturais verdadeiramente revolucionárias. O poder da aristocracia ditou e dita nossos destinos.
Excetuando-se a Revolução Praieira, em Pernambuco, nenhuma outra teve caráter verdadeiramente ideológico popular. Todas defendiam interesses de grupos locais em rivalidades internas ou contra o domínio da capital. Na Praieira, um cunho socialista foi o mote de todo o movimento. Sem sucesso, infelizmente. Pelo menos numa parte deste continente, bem antes de Cuba, talvez tivéssemos a primeira experiência socialista das Américas... Um país independente que poderia servir de exemplo para o resto do continente.Nunca saberemos se seria exitosa ou não. O Império Brasileiro, em nome da "unidade a qualquer custo" não permitiu este passo importante.Tudo o que acontece hoje é reflexo, óbvio, de nossos antepassados. Quem lutou foi duramente reprimido. A população acostumou-se a ser apenas massa de manobra, nunca teve sequer a oportunidade de ter conhecimento, sendo assim, não tinha capacidade de discernir entre o bom e o ruim. Acostumou-se a ser massa de manobra, sem opinião própria e sem consciência plena do conceito de "cidadão".E é por isso que sempre fomos colônia. Gostamos disso, é nossa primeira vocação.
Mudamos para permanecer iguais.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

E para quem escrevemos?

Uma pergunta recorrente a todos que escrevemos sobre história é: Para quem escrevemos?
Um historiador que pretende ter sua obra reconhecida pelos seus pares, escreve um texto farto em pesquisa, robusto em número de páginas, exageradamente específico e detalhista ao nível atômico. Os títulos devem ter algo de pomposo e extenso, como "representação e imaginário: o lúdico nos infantes luso-brasileiros no sub-distrito de Cafundós de Dentro no biênio 1935-36" Pergunto: quem lê? Tudo bem, alguns defensores desta super-especialização levantarão as vozes em defesa que esta pesquisa poderá ser útil para, digamos, o historiador da criança no século XX. Que seja. Mas quem lê, além dele?
Outra observação pertinente é quanto ao conteúdo. Historiador que escreve curiosidades, picuinhas, banalidades (mas de alto apelo e gosto popular, vide o sucesso e proliferação de revistas sobre história) é logo taxado de menor, raso. História factual, não nos interessa, torcem o nariz. Historiador bom é aquele que enxe de notas de rodapé, mil e uma referências, várias citações.
Enquanto historiador escrever apenas para a academia, insistindo em agradar aos pares e somente a eles, nunca passaremos seus muros (até agora intransponíveis). A história, seja ela do planeta, do país ou do bairro, é de propriedade de todos - letrados e iletrados- e seu acesso deve ser provido pelo historiador.
Enquanto isso, jornalistas escrevem best sellers que vendem como pão quente livros de...? História! E historiador reclama. Todo espaço deixado vago (por vontade própria ou ineficiência) é ocupado por quem quer ou pode.
É preciso repensar nossa maneira de escrever. E de quem queremos realmente atingir disseminando nossas pesquisas, nossos saberes, nossas histórias.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

História "oficial": um crime sem crimoso?

Quando se lê algum texto de história que se pretende (ou se vê) como inovador, de status diferenciado ou produzido por algum novo pop star da historiografia moderna, freqüentemente ele começa assim: "a historiografia oficial diz que..." ou então "segundo a historiografia tradicional..." e segue com uma teoria maravilhosa, inédita, uma visão nunca antes explorada e surpreendente, cheia de fatos e comprovações. Pena que, na maioria das vezes, nem é tão nova assim.
Parece uma onda de que o que realmente vale é o diferente, o inexplorado. Realmente, abordagens novas merecem todas as louvações, o problema é que estas são auto-louvações e, normalmente, pouco ou nada fundamentadas quanto o que separa esta nova abordagem da velha. Ou, não se traz nada de relevantemente novo, ou quando o pesquisador mostra esse novo esquece de apontar quem é, de fato, a historiografia tradicional. Até hoje, por exemplo, não lembro de apontamentos diretos de quem é que é, afinal de contas, o oficial ou tradicional. Não seria ruim ler "segundo a historiografia tradicional, como o(a) historiador(a) fulano(a), em suas obras X e Y..." Senão ficamos nessa exaltação de egos em que existe a figura do historiador-herói iluminado (ou iluminador) e do crime, mas não se conhece o criminoso. É possível que, daqui a cem anos, ainda se farão textos históricos que comecem com "contrariando a historiografia tradicional, o Brasil não foi descoberto por acaso..."
Sério?

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Pensar a história

Desde que sentamos em um banco de Universidade pela primeira vez, somos encorajados a pensar. Pensar o passado, pensar o presente, pensar o futuro. Porém, ao escrever, não somos mais capazes de pensar sozinhos, somos apenas decodificadores de pensares alheios.
Quando se produz um artigo, o professor assinala uma afirmação e questiona: mas quem falou isso? Se a resposta for eu você está em maus-lençóis. Mas você não pode afirmar isso, tem que citar o autor, você leu isso em algum lugar, você não nasceu sabendo isso, sempre alguém pensou antes. Sempre alguém pensou antes, é verdade. Então, sorte que existe a bibliografia, é só escolhermos os autores (mas tem que escolher os autores certos, aqueles que todo mundo já leu, se não for clássico não serve) usar muitas áspas e parênteses, abusar do itálico e vamos lá. Um artigo elogiado! Idéias originais, afirmações sem que seja uma citação - direta ou indireta - somente os consagrados. Nós, não!
O pensar, na academia, é aceito desde que em cima do que os tradicionais pensaram antes de você. Ou um pensar meramente interpretativo e dependente, se possível, alinhado com a maneira de pensar e de acordo com os autores que seu professor goste. Senão, perda de tempo e nota baixa.
Nem sempre temos opiniões formadas a respeito de algo somente com os livros e xerox que lemos quando estamos na Universidade. Nossa vivência, conceitos e até valores podem remontar a um passado mais remoto, portanto, não facilmente identificáveis em bibliografias.
Um pensamento mais livre, menos regrado, talvez desse um ar novo ao ofício do historiador, sem contar que provavelmente produziríamos com uma riqueza crítica mais acentuada, e os textos seriam mais pensados. O pensamento flui mais e melhor quando solto, livre, e não regrado, biônico.
E esta é a proposta para este blog. Uma cadeia de idéias, pensadas pelo autor, sem o peso das citações, da erudição, apenas um exercício de pensar a história sem amarras, sem preconceitos, sem bibliografia engessada ou respeitável. Citaremos, sim, e quando for necessário, mas sem pretensões academicistas.
Críticas, bem-vindas. Debates, sempre. Leitura atenta, essencial. No mais, agradeço a boa vontade de ler e as (possíveis) colaborações.

Um abraço.